Judite e Tenório
Dona Judite é a 'bruxa' local, praticante dos Modos Antigos, sua risada bruxesca, é tida com leveza entre os locais. Sendo visto como boa, ela detém o respeito da maioria das pessoas de Pasture, auxiliando-os, também em pequenas tarefas:
"Outro dia ela curou a vaca da Sra. Divina e do Seu Cláudio, que não tava mais dando leite, coitada." - contou Mázinha
"Ela enfaixou e benzeu a mão da Srta. Marta, que até hoje espera seu prometido Igor retornar do treinamento lá com os Red Marshals." - fofocou dona Esmeralda
"Dona Judite é um anjo, logo agorinha, no verão mesmo, ela abençoou as alianças do Pitélio e da Flomelina.
Isso! 'É' aqueles dois ali no banco. Não olha muito não, se não vai crescer verruga, viu! HAHA.
...Apesar deles estarem muito novinhos, eles se amam bastante e marcaram casamento pra próxima primavera, logo antes do centenário da avó de Pitélio." - explicou Martinha 'cunhada' da Srta. Marta.
"Eu quero que vóvó esteja aqui para ver o casório." - confessou Pitélio
Há, todavia, um outro praticante local dos Modos Antigos. O Velho Tenório é recluso e temido pela comunidade. Vive numa pequena caverna há meio dia de viagem do centro da vila. Passa a maior parte de seu tempo ou forrageando, ou meditando, adquirindo bens como caça, leite, lã e utensílios, através de trocas de favores com os mais velhos da vila, quase que exclusivamente. Afinal, aquelas pessoas mais distantes do misterioso senhor, ou que chegaram recentemente por Pasture, temem que o velho tenha, em seu isolamento, sombrios negócios com as Criaturas do Crepúsculo...
"Dizem que é muito sábio nos Modos Antigos, e que pode curar todo tipo de mazela e afastar toda sorte de praga." - diz Claudinha prima de Divina
"Aquele bicudo rabugento não saberia curar um resfriado, nem se a mazela brotasse na frente dele." - diz Dona Judite - "Mas, se o assunto for praga ou maldição, pode consultar sim, que é tiro e queda! E ele é muito duro na queda."
Apesar de recluso, é esperado que, de vez em quando, os mais jovens e recém chegados busquem o Velho Tenório para uma consulta, remover um quebranto, ou em busca de conversa e companhia de um sábio. Estranhamente, a maioria dos que tiveram de tratar com ele notaram que Seu Tenório nunca parece reconhecer a existência de Dona Judite. Muito fechado, desvia ou pula o assunto toda vez que o nome da 'bruxa' é mencionado. E, jamais comenta as ações da velha, sejam elas boas ou más, coerentes ou não.
Dada sua postura cerrada, ninguém jamais lhe indagou a razão. O povo de Pasture guarda sua curiosidade... qual desabam nos ouvidos de Dona Judite. Entretanto, todos que ousaram lhe perguntar os motivos da rusga, agora guardam segredo sobre o assunto. E, ainda por cima, informam: que se um sujeito tem tanta curiosidade assim, deve perguntar a velha pessoalmente.
Dona Judite, que sempre foi muito aberta, nunca temeu em revelar:
"Nós éramos juntos no passado. Prometidos pra casar. Mas aí um dia ele me viu com o irmão dele e ficou pra sempre com esse bicão aí!"
Triângulos amorosos assim são, de fato, mais raros em Dales, todavia não chegam a ser incomuns. A razão pela qual todos selam o assunto, é que é conhecido da comunidade que muitos invernos atrás, o Irmão de Seu Tenório, Márcio, teve sua vida prematuramente ceifada por uma Criatura do Crepúsculo.
Todos na aldeia choraram muito a morte dele, principalmente Dona Judite.
Por muito tempo isso levantou suspeitas de adultério na comunidade, mesmo que Judite e Tenório não tivessem, ainda, se casado. Contudo, pouco a pouco as dores do luto foram passando e as intrigas... sendo esquecidas. Srta. Olivara, que apesar de senhorita, já possui avançada idade, afirma, entretanto, que tal esquecimento foi obra de um feitiço de Judite para melhorar sua reputação junto a uma cabala de "bruxas" (palavra que exprimiu com bastante ênfase, antes de soltar um sorriso malicioso).
Dona Judite nunca fez questão de aprofundar no assunto e o povo de Pasture geralmente evita adentrar-se demais na investigação. Porém, certa vez, durante uma breve viagem ao vilarejo, resolvi indagá-la:
Mas a Senhora amava mais o sr. Márcio ou o Seu Tenório?
"Aaah menino, eu amava os dois, mas era diferente."
Como assim, Dona Judite?
"O Márcio era meu melhor amigo, né, e o Tenório era meu noivo."
Nossa! E ainda assim a senhora teve coragem de dormir com ele?
"E quem disse que eu dormi com ele menino?" - esbravejou indignada - "Por acaso você não andou escutando lorota daquela carcomida da Olivara não, né?"
Eu? Não, jamais! Pensei nisso porque a senhora mesmo disse a outra vez: "Mas aí um dia ele me viu..."
"Sim, e foi isso mesmo que aconteceu. Mas, eu nunca me deitei com o Márcio. Que coisa mais nojenta."
Vish... Mas, eu acho que é isso que o pessoal pensa da senhora.
"E que deixem pensar! O Tenório pensa a mesma coisa, aquele cabeça dura. Ele viu uma vez que eu e o Márcio fomos buscar uma hera no mato e voltamos descabelados e sorridentes. Se mordeu tanto de ciúmes que abandonou a vila e nunca mais falou com o irmão."
E o que ele disse quando a senhora tentou explicar o mal entendido pra ele?
"Explicar? Que explicar, o quê garoto! Eu era NOIVA DELE, o Márcio era IRMÃO DELE, o mínimo que ele deveria era cumprir a obrigação sagrada de confiar em nós! Óia, cheguei arrepiar de raiva. HAHAHA.
Depois da gargalhada, sua voz adotou um tom saudoso.
"E o pior é que nós tinha ido atrás de hera para fazer um presente para ele. HAHAHA. O aniversário do Tenório estava chegando e eu queria fazer algo especial para meu futuro marido."
...E... E depois que tudo aconteceu? A senhora arranjou outro alguém?
"Que tipo de dama você acha que eu sou, hein menino? HAHAHA Eu amo aquele cabeça quadrada e ainda espero o dia que naquele ohm ohm ohm dele [referindo-se aos sons da meditação], ele vai perceber que eu e o Márcio nunca tivemos nada demais. HAHAHA."
Dona Judite se vira para pegar mais chá e de costas pra mim exclama.
"Viu, só! O povo me pinta como bruxa, mas na verdade eu sou donzela! 82 outonos nas costas, e eu aqui ainda esperando o amor da minha vida! HAHAHA."